Uma pesquisa feita pela plataforma Grainsights, da empresa Grão Direto, para o The AgriBiz mostrou forte pessimismo entre agricultores brasileiros sobre as perspectivas para 2027. O levantamento ouviu 323 produtores em 14 estados em 27 de outubro, dois dias após a eleição.
Principais números
- 84% dos entrevistados esperam que o custo do crédito suba em 2027.
- 83% disseram que não pretendem aumentar investimentos em relação a 2026.
- 74% não acreditam que 2027 será melhor que 2026.
- 61% manifestaram simultaneamente que não aumentarão investimentos, não esperam melhora em 2027 e preveem crédito mais caro.
- Somente 5% se classificaram como totalmente otimistas (pretendem investir mais e esperam condições melhores).
Comercialização e decisões de plantio
A pesquisa aponta impacto direto nas estratégias de venda e plantio. Quase 80% dos produtores afirmaram que expectativas sobre a taxa de câmbio influenciam sua estratégia de comercialização de grãos. A alta recente do dólar — que subiu 9% na semana e fechou a R$ 5,44 em 30 de outubro — foi citada como fator relevante.
Além disso, 60% disseram que a oscilação cambial pode alterar decisões de plantio da safrinha do milho, segundo o levantamento.
Vendas antecipadas e atividade de mercado
Apesar da valorização do dólar, a atividade de negócios esteve contida. Segundo Ruan Sene, responsável pela inteligência de mercado da Grão Direto, o comportamento reflete cautela dos produtores diante das incertezas sobre o desenvolvimento da safra 2026/27 e o forte fenômeno El Niño.
Produtores já aproveitaram ganhos recentes para vender parte da produção esperada. Em Mato Grosso, por exemplo, 43,7% da soja projetada para 2026/27 havia sido vendida até o fim de setembro, contra 31,4% no mesmo período do ano anterior e média de cinco anos de 33,2%, conforme dados do Imea. As vendas antecipadas do milho safrinha ficaram em torno de 19%, alinhadas com o ano anterior e com a média de cinco anos.
Câmbio x custos de produção
Os entrevistados reconheceram que um dólar mais alto tende a aumentar a receita em reais para exportadores, mas também eleva o custo de insumos cotados em dólar, como fertilizantes, sementes e defensivos. Esse conflito ajuda a explicar a combinação entre maior venda antecipada de soja e menor disposição a investir.
Diferenças regionais
O pessimismo foi generalizado, mas com variações por estado. Em Pará, todos os produtores ouvidos disseram esperar um 2027 pior. Maranhão teve a maior fatia de otimismo: 28% dos entrevistados naquele estado preveem melhora, embora 56% ainda antecipem piora. Em Mato Grosso, que representou 28% das respostas, 70% esperam piora e 13% esperam melhora.
Outros estados com participação relevante na amostra foram Rio Grande do Sul e Paraná (12% cada), Goiás (8%) e Mato Grosso do Sul (6,5%).
Implicações para o próximo ciclo
Os dados refletem um cenário de cautela entre produtores ao entrarem no ciclo 2026/27: tendência a postergar compras de insumos, manter vendas já realizadas e adiar novos investimentos. A combinação de expectativa de crédito mais caro, volatilidade cambial e risco climático com El Niño colocam dúvidas sobre a dinâmica de comercialização e de demanda por insumos no início do próximo ano.



