Um estudo conjunto da S&P Global e da Universidade Purdue aponta que, entre 2024 e 2025, o preço das fazendas em Mato Grosso recuou em dólares, ampliando a distância em relação a Iowa, no Corn Belt dos Estados Unidos. A queda foi atribuída a fatores como compressão de margens, alto endividamento dos produtores e alterações na taxa de câmbio.
Por que os preços recuaram em Mato Grosso
Segundo os autores, a reversão do ciclo favorável às commodities e a elevação dos juros mudaram o cenário econômico do campo brasileiro. Pontos citados pelo estudo:
- Redução nos preços das commodities e no dólar a partir de 2023, que reduziram receitas depois de safras plantadas com custos elevados.
- Taxa de juros que subiu após período de juros historicamente baixos (por volta de 5% em 2021), encarecendo financiamentos.
- Alto grau de alavancagem dos produtores, que levou a um aumento de recuperações judiciais e devolução de áreas arrendadas.
- Queda da liquidez do mercado de terras, com menos compradores ativos e mais oferta decorrente de devoluções de arrendamentos.
Como Mato Grosso se comportou nos últimos anos
Ao longo das últimas duas décadas houve forte correlação entre os valores das terras em Mato Grosso e em Iowa, mas a trajetória de Mato Grosso foi mais volátil. Os preços no estado brasileiro dobraram entre 2010 e 2014 e subiram mais de 100% entre 2020 e 2022, quando se aproximaram dos níveis de Iowa em dólares. A expansão da área de soja foi intensa: em três safras o país acrescentou cerca de 7 milhões de hectares.
Diferenças estruturais que influenciam competitividade
O estudo destaca diferenças na composição de custos e no regime de posse que explicam parte da vantagem competitiva do Brasil:
- Em Iowa, o custo da terra responde por mais da metade do custo total de produção de soja; no Brasil, despesas com terra equivalem a cerca de 15% do custo, em um contexto em que aproximadamente 60% dos custos são diretos.
- No Brasil, cerca de 85% da área agrícola é explorada pelos próprios proprietários; no Meio-Oeste dos EUA, cerca de 75% das propriedades são arrendadas. Isso reduz a exposição brasileira a aumentos dearrendamento.
Além disso, a solidez patrimonial em Iowa sustenta preços locais: o estudo registra que 84% das terras agrícolas americanas não têm dívidas e os rendimentos agrícolas seguem acima das médias de longo prazo, o que ajudou a manter estabilidade de preços em 2024 e 2025.
Implicações para produtores e investidores
Para o produtor, o recuo do preço da terra pode aliviar pressões em custos de aquisição e reduzir o peso do ativo no balanço quando as operações não dependem de arrendamento. Para investidores, a desvalorização em dólares abre espaço para oportunidades de retorno em um eventual novo ciclo de valorização.
Perspectivas e fatores a observar até 2027
O estudo aponta sinais de melhora nas perspectivas para os preços de terra no Brasil, vinculados a dois fatores principais:
- Recuperação recente nos preços globais da soja e do milho, que pode reverter parte da perda de receita.
- Comportamento do câmbio: a valorização do dólar após a reeleição presidencial pode pressionar os preços das terras para cima, dada a correlação histórica entre câmbio e valor da terra.
Por outro lado, a manutenção de juros elevados pode limitar a recuperação ao encarecer financiamentos e reduzir a liquidez do mercado. Em suma, a combinação entre câmbio, preços das commodities e custo do capital deverá determinar a evolução dos valores das terras nos próximos anos.



