A expansão dos biocombustíveis e o processamento da soja dentro do Brasil foram apontados como estratégias importantes para ampliar a demanda pelo grão, gerar produtos de maior valor agregado e melhorar a rentabilidade dos produtores rurais.
O tema foi discutido durante o painel "Verticalização da soja na produção de energia", realizado em 17 de setembro, em Ipiranga do Norte (MT), durante a Abertura Nacional do Plantio da Soja 2026/27. O encontro reuniu representantes de diferentes segmentos do agronegócio para avaliar novas oportunidades para a cadeia produtiva.
Entre os assuntos debatidos estiveram a utilização da soja na produção de biodiesel, etanol e proteína animal, além da adoção de sistemas de economia circular capazes de reaproveitar resíduos e subprodutos nas propriedades rurais e agroindústrias.
Biocombustível é estratégico para a soja
Durante o evento, o presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), Jerônimo Goergen, afirmou que a produção de energia a partir da soja deixou de ser apenas uma alternativa ligada à transição energética.
Na avaliação do dirigente, o biodiesel passou a ter importância direta para a sustentabilidade econômica da cadeia da oleaginosa, ao criar uma nova frente de consumo para a produção brasileira.
"O biocombustível é decisivo para a rentabilidade do setor da soja. Não tenho dúvida de que não se trata mais de transição energética, mas de segurança energética e segurança alimentar nessa nova fase do agronegócio brasileiro", afirmou Jerônimo Goergen.
A declaração ocorreu em um momento de busca por novos mercados e por maior industrialização da produção agrícola. Além de exportar o grão, o Brasil pode ampliar o processamento interno para abastecer os setores de combustíveis, nutrição animal e produção de carnes.
Menor demanda externa reforça industrialização
O comentarista do Canal Rural e mediador do painel, Miguel Daoud, destacou que a transição energética deve abrir novas oportunidades para a soja no mercado doméstico.
Segundo ele, caso a China reduza as compras de soja brasileira nos próximos anos, uma parcela maior da produção poderá permanecer no país. Nesse cenário, a indústria de biocombustíveis poderá ajudar a absorver parte desse volume.
A possibilidade de mudanças no comércio internacional também foi considerada pelo diretor-presidente da Evermat, Tiago Stefanello. Para ele, o avanço do processamento da matéria-prima dentro do território nacional é necessário para preparar o setor para diferentes condições de mercado.
Entre as alternativas citadas estão:
- Produção de biodiesel.
- Fabricação de etanol.
- Aproveitamento de DDGS na alimentação animal.
- Expansão da produção de carne.
- Transformação de grãos em produtos industrializados.
- Geração de energia a partir de subprodutos agropecuários.
Stefanello também chamou atenção para os problemas de infraestrutura enfrentados pelo Brasil. Na visão do executivo, o país precisa superar o modelo baseado principalmente na exportação de matérias-primas e investir na transformação dos produtos antes que eles sejam enviados aos portos.
"Tanto o etanol quanto o diesel têm que ser colocados na nossa cadeia como pilares básicos", defendeu.
Setor pede regras mais previsíveis
A necessidade de previsibilidade regulatória também esteve entre os principais pontos levantados durante o painel.
Jerônimo Goergen defendeu o cumprimento das metas previstas na Lei do Combustível do Futuro e a continuidade da ampliação da mistura de biodiesel ao diesel fóssil. A legislação permite que os percentuais sejam elevados gradualmente, desde que os testes técnicos comprovem a viabilidade das novas misturas.
Para o presidente da Aprobio, regras claras são fundamentais para que usinas, produtores e demais empresas da cadeia possam planejar investimentos de longo prazo, sem depender exclusivamente das oscilações do preço do petróleo.
O dirigente também afirmou que a indústria brasileira de biodiesel trabalha para comprovar a qualidade do produto nacional e, futuramente, ampliar sua presença no mercado internacional.
Na avaliação da entidade, o crescimento do setor deve ser acompanhado por um planejamento equilibrado entre oferta e demanda. Dessa forma, a expansão da produção de biocombustíveis poderá contribuir tanto para a segurança energética quanto para a remuneração do produtor de soja.
Integração entre soja, carne e energia
A verticalização também foi apresentada como uma forma de conectar a produção vegetal à pecuária e à geração de energia.
O CEO da Fermap, Fernando Pozzobon, explicou que a empresa utiliza a proteína vegetal produzida na própria propriedade para alimentar os animais. Atualmente, cerca de 99% da dieta fornecida ao rebanho é produzida internamente.
Após a produção animal, os dejetos passam por tratamento e podem ser aproveitados em diferentes atividades, como:
- Compostagem.
- Produção de biogás.
- Fabricação de fertilizantes.
- Adubação das áreas agrícolas.
- Recuperação de nutrientes para o solo.
O modelo permite transformar a soja em proteína animal, um produto de maior valor agregado, e reaproveitar os resíduos gerados ao longo do processo.
Para Pozzobon, o agronegócio brasileiro tem capacidade de responder rapidamente ao crescimento da demanda por matérias-primas destinadas à produção de biodiesel. Ele ressaltou, porém, que o aumento da produção precisa ser acompanhado pelo crescimento do consumo.
Economia circular reduz desperdícios
Outro exemplo de integração produtiva foi apresentado pelo CEO da Nutribras, Paulo Lucion. A empresa trabalha com um sistema que conecta as etapas que vão do campo à alimentação dos animais e, posteriormente, ao retorno dos nutrientes para a lavoura.
Nesse modelo, milho e soja são utilizados na produção de ração. Os dejetos dos animais, por sua vez, são reaproveitados como fertilizantes nas áreas agrícolas.
A lógica representa o conceito de economia circular, no qual os resíduos de uma etapa se tornam insumos para outra. Assim, o ciclo produtivo deixa de terminar com a colheita ou a venda do grão e passa a gerar novos produtos, energia e nutrientes.
Entre os benefícios desse sistema estão:
- Redução do desperdício de recursos.
- Menor dependência de insumos externos.
- Reaproveitamento de resíduos orgânicos.
- Geração de energia renovável.
- Produção de fertilizantes.
- Maior valor agregado por área cultivada.
- Integração entre agricultura, pecuária e indústria.
Verticalização amplia os destinos da soja
O painel realizado em Ipiranga do Norte mostrou que a soja brasileira pode ter um papel ainda mais amplo na economia nacional.
Além da exportação do grão, a produção pode abastecer cadeias de biodiesel, etanol, proteína animal, biogás, fertilizantes e outros produtos industrializados. Esse processo de verticalização tende a aumentar o aproveitamento da matéria-prima e reduzir a dependência de um único mercado consumidor.
Para o setor, a industrialização da soja representa uma oportunidade de fortalecer a demanda interna, gerar empregos, estimular investimentos e ampliar a rentabilidade no campo.
A expansão, no entanto, depende de planejamento, crédito, infraestrutura, segurança regulatória e crescimento do consumo de biocombustíveis. Com esses fatores alinhados, a soja pode se consolidar não apenas como uma commodity de exportação, mas também como base para uma cadeia integrada de alimentos, energia e fertilizantes.
O que está em jogo para o produtor
A utilização da soja na produção de biodiesel e na alimentação animal cria diferentes possibilidades de comercialização para o produtor rural. Em vez de depender exclusivamente das vendas externas, a cadeia pode encontrar novos compradores dentro do próprio país.
A economia circular também pode reduzir custos operacionais ao permitir o reaproveitamento de resíduos para geração de biogás, compostagem e fertilização do solo.
Na prática, o modelo pode contribuir para:
- Diversificar os destinos da soja.
- Agregar valor à produção.
- Melhorar o aproveitamento dos resíduos.
- Reduzir custos com fertilizantes e energia.
- Integrar lavoura, pecuária e agroindústria.
- Aumentar a resiliência da cadeia produtiva.
Conclusão
O debate sobre a verticalização da soja reforçou que os biocombustíveis podem desempenhar um papel estratégico na rentabilidade do setor. Biodiesel, etanol, proteína animal e biogás aparecem como alternativas para transformar a matéria-prima em produtos de maior valor.
Para que esse potencial se concretize, o agronegócio brasileiro precisará avançar em industrialização, infraestrutura, crédito e previsibilidade regulatória. A integração entre produção agrícola, pecuária e energia pode fortalecer o mercado interno e tornar a cadeia da soja mais eficiente e competitiva.
Com informações do Canal Rural.


