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Bioenergia

Etanol de milho ganha espaço em Minas e atrai novos investimentos

Usina de etanol de milho em Minas Gerais com lavoura de milho ao redor
Projetos em Jaíba e Tupaciguara colocam Minas Gerais na rota do etanol de milho e sorgo.

Minas Gerais começa a abrir uma nova frente dentro de uma indústria que já possui forte presença no Estado: a produção de etanol.

Tradicionalmente baseada na cana-de-açúcar, a cadeia mineira de biocombustíveis está recebendo projetos voltados ao processamento de milho e sorgo. Os investimentos anunciados em Jaíba, no Norte de Minas, e Tupaciguara, no Triângulo Mineiro, mostram que o modelo de usina capaz de trabalhar com diferentes matérias-primas começa a ganhar espaço.

A oportunidade acompanha um movimento nacional. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção brasileira de etanol de milho alcance 11,91 bilhões de litros na safra 2026/27, crescimento de aproximadamente 17% sobre a temporada anterior.

Para Minas, no entanto, a consolidação dessa indústria dependerá de mais do que novas plantas. Oferta regional de grãos, irrigação, logística, energia e condições econômicas para competir com o Centro-Oeste estarão entre os fatores decisivos.

Minas começa a entrar no mapa do etanol de cereais

O Estado possui uma indústria sucroenergética consolidada, mas a produção mineira de etanol historicamente esteve concentrada na cana.

Esse cenário começa a mudar com investimentos que permitem aproveitar milho e outros cereais na fabricação do biocombustível.

Dois projetos se destacam atualmente.

Um deles é desenvolvido pelo Grupo SADA em Jaíba, no Norte de Minas Gerais. A empresa está adaptando unidades para operar no modelo flex, combinando cana-de-açúcar e milho.

O outro projeto está localizado em Tupaciguara, onde o Grupo Aroeira implantará uma nova planta de etanol de cereais dentro de seu complexo industrial.

Embora tenham características diferentes, os dois investimentos apontam para uma tendência comum: ampliar o período de operação das unidades e diversificar as matérias-primas utilizadas.

Grupo SADA investe em usinas flex

O Grupo SADA anunciou R$ 1,1 bilhão em investimentos destinados a dois projetos de etanol de milho.

As unidades estão localizadas em Jaíba, Minas Gerais, e Montes Claros de Goiás, em Goiás.

Segundo a própria companhia, a estratégia é transformar as operações em usinas flex, capazes de utilizar cana e milho ao longo do ano.

Cada projeto prevê capacidade de aproximadamente 180 milhões de litros de etanol de milho por ano.

A lógica industrial é reduzir o impacto da sazonalidade da cana-de-açúcar.

Durante o período de moagem, a cana continua sendo utilizada normalmente. Fora desse período, o milho pode manter parte da estrutura industrial em funcionamento.

Isso aumenta a utilização dos ativos instalados e pode melhorar a eficiência do complexo como um todo.

Aroeira prepara planta de milho e sorgo em Tupaciguara

No Triângulo Mineiro, o Grupo Aroeira também avança na diversificação.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 618 milhões em financiamentos para a implantação de uma planta de etanol de cereais no complexo da empresa em Tupaciguara.

A unidade será operada pela Biomil Etanol Ltda. e tem início de operação planejado para 2028.

Na primeira etapa, a planta deverá processar cerca de 330 mil toneladas de cereais por ano, principalmente milho e sorgo.

A capacidade projetada de produção é de aproximadamente 146 milhões de litros de etanol por ano.

Além do biocombustível, o empreendimento deverá gerar cerca de 92 mil toneladas anuais de DDGS, coproduto utilizado principalmente na alimentação animal.

Por que combinar cana e milho pode ser vantajoso

Uma usina de cana já possui parte importante da infraestrutura necessária para produzir energia e executar processos industriais.

Durante a moagem da cana, o bagaço é utilizado como biomassa para geração de vapor e eletricidade.

Essa estrutura energética pode ser integrada ao processamento de cereais.

O resultado é uma possível redução da necessidade de construir, do zero, toda a infraestrutura de uma usina dedicada exclusivamente ao milho.

Outro benefício está na utilização dos equipamentos.

A safra de cana possui um período definido. Quando a moagem termina, parte da estrutura industrial fica ociosa.

A possibilidade de processar milho ou sorgo permite ampliar o calendário de funcionamento.

Esse conceito é uma das razões pelas quais o modelo flex vem atraindo empresas do setor sucroenergético.

Etanol de milho cresce rapidamente no Brasil

A produção brasileira de etanol de milho vem avançando em ritmo acelerado.

No primeiro levantamento da safra 2026/27, publicado em abril, a Conab estimava 11,43 bilhões de litros.

Na atualização divulgada em agosto, a projeção subiu para 11,91 bilhões de litros.

Se confirmado, o volume representará crescimento de aproximadamente 17% em relação à temporada anterior.

O Centro-Oeste continua concentrando a maior parte da produção, impulsionado pela grande disponibilidade de milho e pela expansão de unidades dedicadas ou flex.

Para Minas Gerais, essa experiência funciona como referência, mas o Estado possui características próprias que determinarão a velocidade da expansão.

Oferta de milho será um dos principais desafios

Produzir etanol de cereais em escala industrial exige fornecimento contínuo de matéria-prima.

E esse é um dos pontos mais importantes para Minas Gerais.

O Estado possui produção relevante de milho e sorgo, mas também possui grande consumo interno desses grãos.

Avicultura, suinocultura, bovinocultura, produção de leite, fábricas de ração e outras cadeias disputam a mesma matéria-prima.

A chegada de novas usinas adiciona mais um grande consumidor ao mercado regional.

Isso significa que a expansão do etanol de milho dependerá, em parte, do crescimento da própria produção agrícola.

Caso a oferta de grãos não acompanhe a demanda industrial, a necessidade de trazer milho de regiões mais distantes pode aumentar os custos logísticos.

Segunda safra e irrigação podem ampliar a oferta

Uma das possibilidades para aumentar a disponibilidade de milho em Minas está na expansão da segunda safra.

Em várias regiões do Estado, produtores utilizam a soja como cultura de verão e avaliam o plantio de milho ou sorgo na sequência.

O potencial, porém, varia de acordo com o calendário agrícola, disponibilidade hídrica e condições climáticas.

A irrigação pode aumentar a segurança de algumas dessas operações.

Regiões como o Noroeste e áreas do Norte e Centro de Minas possuem potencial para expansão agrícola, mas novos projetos dependem de infraestrutura de energia, armazenamento, logística e disponibilidade de água dentro das regras ambientais.

Quanto maior for a produção regional próxima às usinas, menor tende a ser o peso do transporte sobre o custo da matéria-prima.

Sorgo também pode ganhar importância

O milho não é o único cereal capaz de alimentar essa indústria.

O sorgo aparece como alternativa especialmente interessante em regiões sujeitas a maior risco hídrico.

A cultura possui características agronômicas que podem favorecer sua utilização em determinadas janelas de plantio.

No projeto do Grupo Aroeira, por exemplo, milho e sorgo estão previstos entre as matérias-primas da nova unidade.

A possibilidade de trabalhar com mais de um cereal amplia a flexibilidade de abastecimento e pode ajudar as usinas a responder às oscilações de preço e disponibilidade.

DDGS cria uma segunda fonte de receita

A produção de etanol de milho não resulta apenas no combustível.

Depois que o amido do cereal é convertido em etanol, permanecem componentes ricos em proteína, fibras e outros nutrientes.

Após processamento, esse material dá origem a produtos conhecidos como DDG ou DDGS.

Eles são utilizados principalmente na alimentação animal.

Essa característica é particularmente relevante em Minas Gerais.

O Estado possui grandes cadeias de leite, bovinocultura de corte e produção intensiva de proteína animal, criando um mercado potencial próximo para o coproduto.

Na planta da Aroeira, a previsão é produzir aproximadamente 92 mil toneladas de DDGS por ano.

A comercialização desse produto pode melhorar a economia do projeto e criar integração entre a indústria de biocombustíveis e a pecuária.

Demanda por etanol também favorece novos projetos

O mercado brasileiro de etanol vive um período de aumento da demanda potencial.

A ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina aumenta a quantidade de biocombustível necessária para atender ao mercado.

Ao mesmo tempo, políticas de descarbonização e investimentos em combustíveis renováveis mantêm o etanol como uma das principais alternativas brasileiras para redução de emissões no transporte.

Esse cenário ajuda a sustentar decisões de investimento em novas capacidades produtivas.

Competição com o Centro-Oeste será um teste para Minas

A disponibilidade de matéria-prima não é o único ponto decisivo.

Minas Gerais disputa investimentos com Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e outros Estados que já possuem cadeias estruturadas de etanol de milho.

Nessas regiões, grandes safras de grãos, infraestrutura industrial existente e políticas estaduais ajudaram a acelerar o crescimento do setor.

Para atrair novos projetos, Minas precisará oferecer condições econômicas competitivas.

Entram nessa conta tributação, logística, financiamento, licenciamento, disponibilidade energética e proximidade entre lavouras, usinas e mercados consumidores.

Não basta produzir milho. É necessário transformar toda a cadeia em uma operação economicamente eficiente.

Nova indústria pode mudar a dinâmica regional dos grãos

Se os investimentos avançarem, o impacto poderá ir além da produção de combustível.

Uma usina de etanol de milho cria demanda relativamente previsível por cereal ao longo do ano.

Para produtores próximos, isso pode representar uma nova alternativa de comercialização.

A presença de compradores industriais também pode estimular investimentos em armazenagem, irrigação e expansão de área.

Ao mesmo tempo, uma demanda maior pode aumentar a competição pelo milho entre usinas de etanol, produtores de proteína animal e fábricas de ração.

O resultado dependerá da velocidade de crescimento da oferta.

Minas está apenas no começo dessa nova frente

Os projetos anunciados em Jaíba e Tupaciguara mostram que Minas Gerais possui condições para participar da expansão do etanol de cereais.

A base sucroenergética já instalada, a produção de grãos, a pecuária e o grande mercado consumidor de DDGS criam sinergias importantes.

Por outro lado, os investimentos não significam que o modelo será automaticamente reproduzido em todas as usinas mineiras.

Cada projeto dependerá de disponibilidade regional de milho ou sorgo, logística, estrutura industrial, custo de capital e condições de mercado.

O avanço dos próximos anos mostrará se as primeiras plantas serão casos isolados ou o início de uma transformação mais ampla da indústria mineira de biocombustíveis.

Perguntas frequentes

Minas Gerais já produz etanol de milho?

O Estado está entrando nessa nova fase por meio de projetos de adaptação e implantação de unidades voltadas ao processamento de cereais. A estrutura tradicional mineira permanece fortemente baseada na cana-de-açúcar.

Onde estão os principais projetos de etanol de cereais em Minas?

Entre os investimentos anunciados estão uma unidade do Grupo SADA em Jaíba, no Norte de Minas, e a futura planta da Biomil/Grupo Aroeira em Tupaciguara, no Triângulo Mineiro.

Quanto a planta da Aroeira poderá produzir?

O projeto em Tupaciguara prevê capacidade inicial de aproximadamente 146 milhões de litros de etanol por ano e processamento de cerca de 330 mil toneladas de cereais.

O que é uma usina flex?

É uma unidade capaz de utilizar diferentes matérias-primas, como cana-de-açúcar e milho, ampliando o período de operação e aproveitando parte da mesma infraestrutura industrial.

Qual é a projeção nacional para o etanol de milho em 2026/27?

A Conab estima produção de aproximadamente 11,91 bilhões de litros na safra 2026/27.

O que é DDGS?

É um coproduto do processamento de cereais para produção de etanol, rico em nutrientes e utilizado principalmente na alimentação animal.

Fontes

  • Conab — Levantamentos da safra brasileira de cana-de-açúcar e produção de etanol 2026/27.
  • BNDES — Financiamento para implantação da planta de etanol de cereais da Biomil/Grupo Aroeira em Tupaciguara.
  • Grupo SADA — Informações institucionais sobre os projetos de usinas flex em Jaíba (MG) e Montes Claros de Goiás (GO).